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Resiliência de Mulheres Negras

Autor: Equipe SOBRARE Publicado em: 11/02/2026

Vamos apresentar para você um belíssimo projeto acadêmico que teve como objetivo estudar a resiliência em mulheres afrodescendentes e os desafios que encontramos nesse cenário por muitos anos da nossa história. O projeto de mestrado foi desenvolvido pela autora Lucienia L. Pinheiro Martins, na Universidade Federal do Piauí. Os principais fatores que motivaram o desenvolvimento dessa pesquisa e como a resiliência está presente na vida dessas mulheres você encontrará no decorrer deste post. Ao final do texto você poderá ter acesso ao projeto completo da Lucienia. Boa leitura.


A vida é permeada por momentos difíceis de toda natureza, que podem marcar a existência e até paralisar uma caminhada. Contudo, o ser humano é provido de características singulares que o mobilizam para enfrentar e superar essas dificuldades. Dentre tantas características que o impulsionam ao crescimento está a resiliência, da qual a pesquisa que vamos apresentar hoje se propôs a tratar. Construída ao longo da vida, na interação de elementos internos e externos da pessoa, a resiliência favorece a superação de situações estressoras e adversas.


Neste estudo prevalece o conceito de resiliência trabalhado pela Psicologia, adaptado por meio das várias definições advindas das ciências naturais: a capacidade humana de enfrentar, sobrepor-se ou sair fortalecido ou transformado de experiências de adversidade. Para aproximar o conceito ao objeto de estudo proposto pela investigação, o trabalho teve como base a definição de resiliência apresentada por Coimbra (2008, p. 96): Um processo que se mantém ativo durante o percurso de vida, de resistência, de crescimento e de melhoria de si próprio(a) como resposta à crise e ao desafio.


Mulheres afrodescendentes



A crescente presença de mulheres afrodescendentes como membros da classe média brasileira incentiva estudos para saber mais dessas mulheres que parecem superar barreiras de tipos diversos. À medida que mergulhamos na teoria que discute a resiliência e a afrodescendência, começamos a perceber que as mulheres afrodescendentes, de forma atemporal, apresentam suas histórias envoltas a situações de crise. Em vários contextos da sociedade há a necessidade de vencer desafios e superar barreiras para conquistar espaços.


Envoltas por esse cenário, percebe‐se que, à medida que essas mulheres conquistam mobilidade social ascendente, outras questões internas — como baixa autoestima, autoconfiança, autocontrole e empatia — entre outras características, as impulsionam ao crescimento. Neste sentido entendemos que a resiliência se faz presente em várias etapas das lutas travadas pelas mulheres afrodescendentes.


Desse modo, esta pesquisa, intitulada Afrorresilientes: a resiliência de mulheres afrodescendentes de sucesso educacional, investigou como mulheres afrodescendentes com curso superior apresentam seus níveis e intensidades nos modelos de resiliência frente a situações estressoras e adversas.

 

Nesta pesquisa são consideradas afrorresilientes as mulheres que, apesar do cenário de discriminação, preconceito e racismo em que possam estar inseridas, demonstram reação positiva frente às adversidades. É nessa perspectiva de resistência, crescimento e autoconhecimento que se busca identificar e descrever a resiliência em um grupo com características e trajetórias de vida bem específicas: as mulheres afrodescendentes.

Nesta pesquisa o termo afrodescendente denomina um conjunto amplo de diversas nomeações dadas ao negro, pretendendo eliminar as desgastantes e não conclusivas discussões em torno do conceito do que é ser negro.


A resiliência



A resiliência vem sendo estudada pela Psicologia Positiva. Essa abordagem rompe com o viés negativo e reducionista de teorias focadas apenas em aspectos psicopatológicos e volta‐se para o que há de saudável e positivo na vida e no desenvolvimento do ser humano. Assim, dilui‐se a noção de que o indivíduo está aprisionado a um ciclo sem saída. Neste estudo predomina a compreensão da resiliência como característica que deve ser sempre relativizada e entendida dentro de um conjunto amplo de fatores internos e externos ao indivíduo.


Esta pesquisa surge das reflexões produzidas por Boakari (2010), ao afirmar que, mesmo com as conquistas, as situações de discriminação e as experiências excludentes seguem presentes na vida dos afrodescendentes. O autor enfatiza a necessidade de reconhecimento e valorização da presença de mulheres afrodescendentes entre brasileiros de elite. Tal afirmativa, dentre outras experiências que serão compartilhadas, estimulou o interesse de identificar a resiliência em um grupo de mulheres afrodescendentes.


Como se configuram os modelos de resiliência nas lutas contra a discriminação, o preconceito e o racismo que muitas vivem? Em termos de resiliência, como melhor descrever as atitudes e crenças desse grupo de mulheres afrodescendentes? A forma como uma pessoa percebe e elabora os problemas é um aspecto importante para estudiosos da resiliência. Para a autora do projeto, compreender a resiliência em mulheres afrodescendentes e perceber as características de um grupo de mulheres com curso superior em atividade foi um exercício visceral.


A autora relata que, ao iniciar a reflexão acerca da temática, foi inevitável realizar uma retrospectiva de como se apaixonou pelo tema. As reflexões construídas por Boakari (2010) levaram a outros momentos, nos quais ela entendeu seu primeiro encontro com o fenômeno da resiliência. Ocorreu há alguns anos, quando, em um supermercado, observou uma empregada doméstica afrodescendente empurrando um carrinho de compras muito pesado e sem ajuda da patroa. No seu coração houve um minuto de silêncio ao perceber um sentimento de entrega, renúncia e predestinação àquela situação. Naquela época a empregada possuía a crença de entender o serviço doméstico como uma extensão da senzala; hoje percebe isso de modo diferente, mas naquela situação o sentimento se acentuou.


Depois de introspecção, a autora viu que, mesmo em situação limitada — tanto economicamente quanto em suporte familiar — aquela mulher acreditava haver muitos recursos internos que indicavam que seu caminho poderia ser diferente. Lucienia guarda essa lembrança como fonte de energia para pesquisar, buscando compreender os fatores geradores de resiliência em mulheres afrodescendentes, uma vez que algumas chegam a maiores conquistas e outras permanecem em situação de submissão e fragilidade. Essa vontade latente de pesquisar está associada ao desejo de ver, um dia, por meio da ciência, a sinalização de que as mulheres afrodescendentes podem descobrir, construir e fortalecer essa força intrínseca deixada pelas ancestrais guerreiras.


Outro momento relatado foi a leitura da história do Patinho Feio, rememorada na obra Os patinhos feios, de Boris Cyrulnik (2004), que a despertou para a existência das diferenças e de como, no cotidiano, nas distintas relações sociais, são percebidas e tratadas. A obra levou a revisitar sentimentos vivenciados na infância, quando se sentia diferente por pertencer a uma família sem uniformidade nos traços físicos e na cor da pele. Nesse contexto compreendeu por que, em muitos momentos, desde a infância até a universidade, a "patinha feia" deprimia‐se e isolava‐se, podendo ter reagido com hostilidade às agressões recebidas. Ela poderia ter juntado a outros revoltados, formado um grupo e adotado comportamentos marginais. Mas não. Persistiu e buscou desde a graduação em Psicologia, em uma faculdade particular, trabalhar essas questões; toda essa busca levou ao mestrado e ao grupo de pesquisadores que estudam educação, gênero e afrodescendência RODA GRIÔ, onde essas discussões se fortalecem.

 

Histórias de luta



Acredito que a resiliência sempre esteve presente nessas mulheres, por meio de suas histórias de luta e pelo contexto sócio‐histórico em que estão inseridas. A arte de "dar a volta por cima", ou seja, a engenhosa capacidade de superação das adversidades, é característica de muitos afrodescendentes: basta olhar a música, a culinária, a dança e os diferentes modos de viver e manifestar esse viver ao mundo, tão fortemente observados nos perfis de mulheres afrodescendentes. Todas essas riquezas, de algum modo, representam tentativa de alívio da dor, do sofrimento e da violência geradas desde o ventre do escravismo criminoso.


Por mais que a ciência contribua para o entendimento das forças e virtudes, como defende a Psicologia Positiva, não é possível omitir que grande parte da capacidade de reconhecer a queda e recuperar‐se vem do passado. Além dessa característica positiva herdada, os fatores de risco — comportamentos que predispõem a situações negativas — igualmente surgem a partir do contexto escravocrata e reverberam até os dias atuais. Muitas mulheres afrodescendentes diariamente se defrontam com adversidades ligadas a discriminação, preconceito e racismo; por isso precisam buscar recursos internos e externos para superá‐los ou transformá‐los.


No dia a dia, algumas mulheres afrodescendentes adaptam‐se, mostram superação das situações adversas vivenciadas e constroem caminhos positivos diante de vidas difíceis, enquanto outras apresentam esse potencial menos desenvolvido e sucumbem mais facilmente frente aos obstáculos. Para muitos parecia desnecessário estudar a resiliência em mulheres afrodescendentes; no entanto, agora é notória a riqueza de identificar habilidades que podem estar relacionadas ao sucesso educacional, apesar dos entraves impostos em seu percurso.


Aproveite a oportunidade de ler esse projeto de estudo fascinante e relevante. É um projeto que promove um mergulho na alma de um grupo de mulheres afrodescendentes, um quebra‐cabeças cheio de perguntas que esta pesquisa propôs responder.



Relevante por possibilitar a identificação de como um grupo administra suas emoções frente às exigências do mundo atual e, ao mesmo tempo, alcança sucesso educacional. Sua importância está em permitir conhecer como se apresentam as oito características da resiliência pesquisadas por Barbosa (2010a). Esses elementos podem servir de fonte para o desenvolvimento de programas em instituições educacionais e provocar reflexões nos movimentos sociais que buscam diminuir as desigualdades dessa população.


Este trabalho é importante para a academia, pois pode servir como referencial para estudos mais detalhados sobre como as características da resiliência influenciam o comportamento humano. Pode contribuir para programas que favoreçam o acesso e a permanência de alunos afrodescendentes no contexto escolar, promovendo a superação das barreiras impostas pela discriminação, pelo preconceito e pelo racismo com mais naturalidade e menos disfunções, favorecendo, dessa forma, maior sucesso educacional. Nesse sentido, os resultados apresentados sobre resiliência em mulheres afrodescendentes podem ajudar outras mulheres a enfrentar obstáculos que as impedem de obter sucesso educacional.


Método dessa pesquisa



Para a realização desta pesquisa, a prioridade foi identificar os modelos de resiliência em um grupo de mulheres afrodescendentes, bem como prospectivas para estudos futuros sobre resiliência em mulheres afrodescendentes e educação. Além de registrar o perfil desse grupo, a pesquisa teve o propósito de:

● Descrever a resiliência;

● Identificar seus modelos e características;

● Identificar os modelos de resiliência apresentados pelo grupo.

Com os dados coletados será possível aferir prospectivas para futuros estudos sobre educação, gênero e afrodescendência. A escolha metodológica foi quantitativa e participaram deste estudo 60 mulheres que se autodeclararam afrodescendentes. A coleta de dados foi realizada por meio da aplicação do questionário Quest_Resiliência, com auxílio e suporte da SOBRARE. Os resultados evidenciados não permitem generalizações, mas podem estimular que futuras pesquisas trilhem caminhos mais aprofundados sobre resiliência em mulheres afrodescendentes e suas associações com a educação.


Acesso ao trabalho completo



Para ter acesso ao trabalho completo da Lucienia, consulte a publicação no site da SOBRARE. Você também pode acessar o livro que a autora publicou com base em seu estudo:

http://www.editoraappris.com.br/afrorresilientes-a-resiliencia-de-mulheres-afrodescendentes-
de-sucesso-educacional

Quem deseja elaborar um projeto acadêmico com auxílio da SOBRARE e desenvolver a Abordagem Resiliente dentro do tema de estudo pode visitar o site da SOBRARE para saber como obter suporte.